27 março, 2015

Sarah sempre foi uma garota tímida e reservada. Mesmo não se sentindo à vontade, era comum estar sob a luz dos holofotes. Seu pai era um famoso diretor de blockbusters, sua mãe, responsável pela curadoria de um dos mais respeitados festivais indies do mundo. Para completar, seu namoro estava em crise e ele era nada menos que o pop star dos filmes teens do momento. Sua melhor amiga? Também era uma estrela do cinema e tinha contracenado com seu namorado no filme que o revelou. 

É querendo fugir desse meio louco que ela acaba caindo da estrada. O que ela não imaginava era que em pouco tempo acabaria se descobrindo verdadeiramente. Se apaixonaria de verdade e deixaria a artista que tinha dentro dela florescer...

Destinos Cruzados é um romance para o público jovem que é recheado com aventura, comédia e romance pelas estradas dos Estados Unidos. Invoca a importância de não desistir de seus sonhos e de ser o protagonista de sua vida. 
Você cairia na estrada com seus amigos para uma aventura?


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E se com tudo isso você ainda está em dúvida, que tal ler o primeiro capítulo?







Capítulo 1

Los Angeles

Tinha que admitir. O tonalizante realmente havia feito uma grande diferença em meu cabelo.
Minha mãe se chocara assim que entrou em meu quarto e veio me entregar o vestido que havia comprado como presente. Me observando bem, entendia a reação dela. Depois de passar anos fazendo mechas claras em meu cabelo, usar um tonalizante castanho escuro tinha me mudado totalmente. Eu parecia mais pálida que o normal.
Eu precisava de um pequeno choque de realidade. Não me lembrar dos dias em Palm Beach já seria um começo.
Mesmo assim, o velho e bom ditado: Ano novo, vida nova.
É definitivo. Ano novo, novos desafios, menos nervosismo, saber me impor mais, não me sentir culpada por não ser quem James gostaria que eu fosse.
Maldição. Apenas três dias e eu tive o gosto de que ainda tenho muito pela  frente. Não iria me sentir mal por ser quem sou.
“Sarah, eu pensei que você fosse me dar um abraço antes do ano novo.”
Sorri ouvindo meu irmão falar do lado de fora do quarto enquanto terminava de me arrumar. Estava certa de que ele me arrastaria para sair junto com sua namorada chata e seu meu irmão mais novo, então tentei estar mais arrumada que o normal.
“Já vou!” informei enquanto tentava encontrar as botas que queria. 
“Você já disse isso para mamãe duas vezes!”
Ri mais uma vez e olhei para o desenho que fiz de mim mesma. Não era algo que eu iria querer mostrar para alguém, então o deixei no fundo da gaveta da minha escrivaninha. Terminei de calçar as botas e destranquei a porta do quarto ouvindo um longo suspiro. 
Hugo me deu um sorriso torto e me olhou de cima a baixo. Eu tinha certeza de que ele estava tentando não fazer uma pergunta grosseira. 
“É por isso que mamãe falou que você voltou diferente?” Fiz uma careta e fechei a porta do quarto. “Você passa três dias na Flórida e volta igual uma gótica?”
Eu ri. 
Alto. 
Bem alto. 
“Foi ela quem me deu esse vestido preto para passar o ano novo.”
“Mas você está usando essas botas, meia, maquiagem, e o seu cabelo está igual ao de Mortícia Addams.”
“Oh!” Coloquei minhas mãos sobre o peito fingindo estar ofendida. “Assim você realmente me emociona.”
“Sério S. Está me assustando.” Ele nem conseguia fingir que estava sério.
Me escorei na sacada da escadaria e olhei para ele ainda rindo. Não conseguiria ficar com raiva do meu irmão mais velho, e tinha certeza que se essa fosse sua sexta ou sétima cerveja, ele seria um tanto mais cruel com seus comentários. Ele deu mais um gole preguiçoso e me olhou com calma. Era como se ele estivesse me analisando, e eu me lembrei de enforcar Mandy por isso. Em uma cidade enorme como Los Angeles ele tinha mesmo que se apaixonar por uma futura psiquiatra?
“Quando você vai parar de me analisar?” Perguntei pegando a cerveja da sua mão. Ele gargalhou e balançou a cabeça.
“Estou tentando entender...” Fez gestos estranhos com as mãos, como se quisesse apontar uma parte especifica de meu corpo.
“Eu só tonalizei o meu cabelo com um shampoo castanho escuro.” Dei os ombros e bebi um pouco de sua cerveja. 
“Seus olhos...”
“São iguais aos seus.” Abri um enorme sorriso e comecei a andar de novo. “Mamãe disse que você foi ao atelier.”
“Você está mudando de assunto.”
“Não estou.” Continuei. “E vocês deveriam saber o que significa privacidade.”
“Fazia tempo que você não produzia tantas peças. E tantas peças boas em tão pouco tempo.”
“Hugo...” Me virei para ele quando chegamos ao primeiro andar. “São apenas rascunhos.”
“Você deveria investir mais nisso.” Ele me deu um sorriso encorajador. “...de desenhar pessoas e tudo mais.”
Escutei as vozes vindas do quintal de casa. A festa de ano novo estava acontecendo por lá, mas fui com Hugo ao atelier. Minha mãe sempre gostou de desenhar e pintar, mas sempre foi como um hobby. Para mim talvez fosse um hobby também. Um hobby que eu ainda estava levando a sério. Tão a sério que meus pais me deram esse quartinho próximo a garagem para chamar de meu atelier. Ele não era grande, mas cabia todo o tipo de tralha que eu usava.
“Com cabeças, claro.” Ele avisou risonho vendo os últimos desenhos que eu tinha feito. “Este aqui.” Ele parou na frente de um deles. “Este é o meu favorito.”
O desenho era das mãos dele dedilhando um violão. Eu mal tinha desenhado seu tronco.
“Como foi a sua viagem? Vamos lá, serei mesmo o último a saber dos detalhes mais legais?”
“Não sei...” Comecei a organizar os pasteis em cima da mesa. “Muito curta para realmente aproveitar.”
“É bem a cara da Rebecca!” Ele riu. “Te arrastar para uma furada sem tamanho como esta. Visitar os tios? Mesmo assim aposto que ela conseguiu aprontar alguma.”
“Melhores amigas estão sempre juntas, certo?”
“Eu sempre disse que você deveria viajar mais. Conhecer o mundo.” Ele apontou para o desenho mais uma vez. “Esses três dias que você passou em Palm Beach, que é do tamanho do nada, podem não ter sido proveitosos como viagem, mas você voltou inspirada”
Apenas dei os ombros e me virei. 
“S, você quer conversar? Mamãe também reparou que algo não está no lugar. Você e o James brigaram de novo? Vamos, converse comigo.”
“Sobre o que?” Sorri tentando não pensar muito no que tinha acontecido. Antes de Palm Beach e obviamente o que tinha ocorrido em Palm Beach.  
“Sobre o que aconteceu nessa viagem. Mamãe comentou comigo. Desde que você chegou não sai do quarto ou do atelier.”
“Nossa!” Joguei os braços para cima. “Sabia que eu cheguei ontem na hora do jantar? Sabe que a Flórida tem um horário totalmente diferente do nosso?”
Hugo parou na minha frente de novo. Me observou com cautela e ergueu uma sobrancelha. Eu apenas grunhi frustrada. 
Éramos parecidos demais. Nós éramos magros demais, tínhamos o cabelo loiro e olhos tão verdes... ele acabava ficando com o título de vara-pau da família. Era muito alto enquanto eu continuava com a mesma altura média da minha mãe. Continuava sendo muito magra como uma garota quer ser, mas tinha algumas curvas que demoraram a aparecer, mas que graças a deus estavam aqui. 
Nossa diferença de idade não era tão grande quando sentávamos para conversar. Não que eu tenha alguma certeza sobre isso ser bom ou ruim... Cinco anos pode ser muito quando colocamos no papel, mas graças a essa diferença eu estou um pouco à frente do meu tempo. 
“Deveria ter ficado lá.”
“Não ia passar o ano novo longe de casa!”
Ele rolou os olhos impaciente. 
“Abra o jogo comigo. Qual é! Você geralmente age como uma tagarela quando eu estou em casa.”
“É tão difícil assim entender que eu ainda estou cansada?”
“Você está fugindo.”
“Não estou! Não estou e não estou!” Bati o pé no chão como uma criança. “Sério, você já deveria estar bêbado!”
“Está.” Ele me olhou sério. “Quem é?”
“O quê?” Dei o meu máximo para não parecer que tinha sido pega.
“Quem é?” Ele perguntou apontando para os desenhos pendurados.
“Ah!” Me arrumei um pouco antes de começar. “Um músico. Eu e Rebecca fomos em um pub. Bem legal por sinal, eu posso até te passar o nome...”
“Sarah...”
Pensei em abrir a boca e finalmente fazer o que ele tanto queria, mas fui salva por minha mãe.
“Olha eu sei que as mocinhas estão na maior fofoca agora, mas todos estão com fome e não gostaria de fazer a família de Mandy esperar muito mais.”
“A família da Mandy está aqui?” Perguntei surpresa. 
“Está e eles estão morrendo de fome.” Mamãe não parecia muito animada com a presença deles. Imagino quem poderia ficar...
“Vamos.” Comecei a caminhar para fora da pequena sala. Hugo apenas me olhou e deu um beijo no topo da minha cabeça quando passou por mim. 
“O que deu nele?” Mamãe notou como ele tinha ficado diferente.  
 “Deve ser por causa dos pais da Mandy. Talvez ele esteja preocupado em não desapontá-los por sermos uma família normal, não os Kardashian.”
“É, deve ser isso.” Ela não segurou o riso. “Precisava ver a cara da mãe dela quando notou que o forro do sofá está rasgado.” Abraçadas, seguimos até o quintal.
Eu era a rainha em mudar de assunto. E com a família de Mandy em nossa casa, foi fácil fazer com que o assunto fosse divertido. Era claro como os pais dela imaginavam que, por morarmos em Beverly Hills, haveria paparazzis correndo pela vizinhança. Pensavam que nossa casa seria impecável, além de desnecessariamente enorme.
Foi engraçado notar o claro desapontamento deles. De que somos uma família normal, apesar de meu pai ser um famoso diretor, e minha mãe a curadora de um importante festival de cinema indie. O meu gato e o nosso cachorro cavaram um buraco no estofado do nosso sofá enquanto eu estava fora, e a nossa festa de ano novo era ao som do dock dos nossos iPods e celulares. Nossa lareira no jardim era rústica. Nossa piscina era de um tamanho muito bom, apesar de não ter raia olímpica.
Os empregados? Só eram três. Um segurança, um jardineiro e uma governanta que trabalhou por muito tempo como nossa babá e a quem mamãe não queria demitir, nem dar a ela o pesado trabalho doméstico. Todos estavam dispensados para passar as festas de final de ano com suas famílias. Tenho certeza de que minha mãe cuidou da casa sozinha, no lugar de chamar a equipe de limpeza.
Era divertido zombar deles sempre que eu tinha chance. No lugar de falar sobre a vida de nossos vizinhos famosos, tentei levar as notícias em pauta do dia. Sabe? As notícias importantes. O único momento em que não consegui mudar de assunto foi quando Mandy, cheia de esperanças, imaginou que fosse encontrar o James aqui em casa.
Quando eu disse que ele estava passando o ano novo em Nova York, ela tentou me criticar por não estar com ele, afinal ele é James Scott. O galã, o astro teen, um dos homens mais desejados do mundo pelo terceiro ano consecutivo segundo vários sites e revistas. E ele é o meu namorado. Ou ex? Eu não sabia dizer. Tudo ainda estava confuso. E com os acontecimentos dos últimos dias, nada melhorava.
Quando pensei que iria me safar, ela começou a falar para seus pais como Rebecca era um doce de pessoa e minha melhor amiga. Seu tom indicava que Rebecca Lewis, uma das jovens estrelas mais bem pagas de Hollywood, fazia caridade em ser minha amiga.
Fame whore de uma figa.
Se ela soubesse apenas metade do que já tinha rolado entre a Rebecca e seu namoradinho, com toda certeza a odiaria.
Fiquei imaginando se em algum momento ela iria criticar a Taylor. Sempre que tinha a oportunidade criticava o meu gosto musical. Aposto que ela sentia inveja por não ter fotos e álbuns autografados com exclusividade. Isso sim.
Hugo notou como eu estava incomodada com a celebrização de pessoas queridas por nossa família e tratou de mudar de assunto. Ainda estávamos jantando quando recebi a mensagem em meu celular. Em Nova York já era ano novo. Aqui, ainda faltavam algumas horas.
Feliz ano novo S. Para todos nós. Sinto sua falta.
Bem, talvez o James realmente não fosse o meu ex-namorado. Talvez ele também não precisasse saber de nada do que tinha acontecido. Talvez ele já tivesse esquecido a nossa última briga... Talvez, talvez...
“Tacos!” Mamãe gargalhou chamando minha atenção. “Eu adoro tacos. Todos aqui comemos tacos em um food truck maravilhoso. Vocês deveriam...”
Se a minha mãe estava se divertindo à custa dos convidados, eu poderia voltar a fazer isso também. Tão logo que eu respondesse aquela mensagem.
Estarei no lugar de sempre. Murphy mandou um oi.
Desliguei o meu celular torcendo para que James não ficasse bêbado e perdesse o seu aparelho novamente. A última vez que isso aconteceu, uma fã maluca publicou tudo o que encontrou no celular em sua página do Facebook. Claro que fiquei chateada com a exposição desnecessária. Mas também me magoara com o tratamento que recebera mais uma vez. Meu rosto riscado, comentários maldosos sobre eu não ser o suficiente para ele.
Observei a minha família sorridente e feliz, comemorando o ano novo do jeito que a gente sempre fez e tive certeza de que nenhum lugar era melhor para estar, se não fosse na companhia deles.
Cinco meses depois.
Dirigir pelas ruas de Los Angeles não tinha graça. O trânsito, o mau humor das pessoas, celebridades e artistas sendo perseguidas. Tudo isso fazia com que minha cidade se tornasse o verdadeiro inferno na terra.
Quando meus pais se casaram e compraram uma casa em Beverly Hills, eles imaginavam que nossa vizinhança seria tranquila. Lugar de gente rica, porém educada. E de fato até que era. Todo mundo prezava por um pouco de paz... de vida normal. Mas anos atrás Paris Hilton teve a sua casa invadida por adolescentes por diversas noites.
Não preciso dizer que nosso paraíso feliz virou um inferno por uns dois meses, certo?

Era quase tão infernal quanto qualquer outro bairro com boas casas por um preço absurdo e artistas ocupando estes metros quadrados. 
E durante aqueles meses meus pais até pensaram em se mudar. Meu pai ficava falando o tempo todo que havia escolhido Beverly Hills por ter um clima de subúrbio familiar em meio a tanta loucura.
Talvez nos vinte e sete anos dele...
Com as casas de outros artistas sendo invadidas, minha mãe questionava se não deveríamos nos mudar.  Não muitos meses depois, voltamos a ter um pouco de paz e era isso o que eu amava em minha casa. O silêncio e a tranquilidade de uma família quase normal como a nossa. 
Aos vinte anos sei que mais pareço ter uns trinta quando começo a falar dessa forma. Ok, talvez eu esteja parecendo ter mais de sessenta agora. Além de tudo estou falando sozinha.
Diria que tenho um pavio relativamente curto, detesto barulho demais, lugares cheios de gente, detesto ser o centro das atenções. De verdade. Sempre dá algo muito errado.
Mês passado aconteceu o meu último fiasco em um evento público e eu me prometi que não iria passar por isso de novo. É claro que eu estampei várias revistas de fofoca por ser a tímida e desastrada namorada de James Scott, quando pisei em meu vestido com aqueles saltos altos enormes e o rasguei nos primeiros metros do tapete vermelho da première seu filme. Acidentes acontecem, mas comigo parecem ser frequentes.
Como quando eu derrubei o primeiro Oscar que meu pai recebeu, na entrada da festa da Vanity Fair. Provavelmente foi ali, dez anos atrás, que a maldição começou.
Ou quando tentei sorrir para as fãs do James uma vez que nos encontraram em um restaurante e tudo o que escutei foram sérios xingamentos. Nem preciso me lembrar do desastroso MTV Movie Awards em que meu pai foi convidado para apresentar uma categoria com um de seus filhos e sobrou para mim. Gaguejei no palco, ao vivo, e fui criticada por semanas.
Olhei para meu celular, lembrei das últimas criticas e lamentei que o sinal ainda estivesse fechado. Não queria que ninguém me reconhecesse e apontasse em minha direção. Não depois de ver aquelas fotos sendo publicadas por toda parte.
Minha privacidade estava sendo invadida de tal forma que senti como se não fosse mais ter paz. Eu estava na piscina com o meu ex-namorado. Estava bebendo uma cerveja com ele. É claro que eu sabia que era menor de idade, e na teoria não deveria beber, mas eu não estava sendo irresponsável. Estávamos na casa dele. Como se eu não fosse azarada o suficiente, precisei que ele arrumasse a parte de cima do meu biquíni.
O mundo tinha visto meus peitos.
E para completar, tivemos a nossa briga mais feia de todas depois disso. O pior é saber que não estou triste pelo término de nosso namoro. A primeira vez que brigamos e nos afastamos foi a pior. Na segunda, ano passado, notei que estava cometendo erros e mesmo assim, nos últimos meses continuei insistindo. Ainda me sentia culpada de alguma forma. Sabia que ele também gostava de mim, mas como namorados, não dava mais.
O melhor de tudo? Ele acabou comigo por telefone dessa vez. Nenhum paparazzo me flagraria chorando, mas agora eu entendia como a Taylor se sentia.
Deus. Eu só derrubei o primeiro Oscar do meu pai. Só. Não foi algo tão ruim assim, foi?
E era por isso que eu estava dirigindo a caminho de casa. Eu não ia ficar a tarde toda esperando que possíveis representantes de outras turmas viessem conversar comigo sobre meu desenho exposto na galeria USC. Estava tão nervosa e desesperada para correr dali que inventei que meu gato estava passando mal.
Sabe, ele tem aqueles problemas com bolas de pelos. – Avisei à diretora do meu departamento assim que ela entrou na galeria. Eu até fingi que estava atendendo o meu celular – e minha mãe não sabe lidar com isso. Ela precisa que eu a acompanhe, e Murphy é o mais próximo que tenho de uma musa em minha vida. 
É claro que ela não acreditou. É claro que saí correndo para não ter que piorar a minha mentira.
Eu realmente não me sentia digna de respeito algum. Simplesmente não sabia conviver muito com pessoas estranhas ao meu redor. Estava tão envergonhada de ver que aquela maldita tela era comentada por meio mundo de pessoas estranhas...
Fazer faculdade era totalmente diferente de ir à escola, e mesmo assim, minhas lembranças não eram as melhores. Minhas notas sempre foram medianas. Me sentava no fundo da sala e sinceramente detestava boa parte dos meus colegas de classe. Não me encaixava em nenhum grupo. Não era popular, nem nerd, nem tinha pique para ser uma líder de torcida. As pessoas só começaram a reparar em mim quando no meu último ano Rebecca foi transferida definitivamente para Los Angeles e sua família achou uma boa ideia ela estudar na mesma escola pública que eu.
Virei popular no mesmo momento em que descobriram que eu realmente era a melhor amiga de Rebecca Lewis. E que ela iria estrelar em um novo filme do meu pai. Nem preciso dizer que depois que o James fora revelado, rolou uma chuva de pessoas querendo me adicionar no Facebook...
Meu irmão se formou no mesmo colégio que eu com direito a bailes, festas de primavera e inverno, viagens... Eu não participava de todos esses eventos. Não tinha paciência para todo aquele drama. Nem queria mais ter que aturar outras garotas falando como eu era magra demais, como o meu cabelo era longo demais e como eu era estranha por agir como um menino e não como uma menina.
Eu gosto de futebol americano. E quando menor, achava o máximo sujar o rosto com sombra preta de minha mãe e ir jogar com meu irmão e seus amigos no quintal. Sempre preferi tênis a sapatilhas. Calças jeans no lugar de saias. Nos trabalhos em grupos eu sempre acabava fazendo tudo sozinha, apenas para entregar logo e não perder o prazo. Nas festinhas, eu quase nunca era convidada. Se convidavam, deixavam bem claro o nome de meu pai no convite.
Não, os meus poucos anos de escola não foram agradáveis ou felizes. E eu os venci. Me livrei do ensino médio. Me formei raspando, mas me formei. 
Mas minha educação superior era diferente. Minha mãe fez questão que eu investisse mais em mim. No inicio não concordei, mas ela já tinha feito algumas inscrições por mim. Nós tivemos uma reunião de família. Hugo já estava morando fora de casa boa parte da semana. Ele estava estudando para se tornar um diretor de cinema igual ao papai e não se conformava com o fato de eu não querer ir para uma universidade regular. Ele gostava de apelar para o argumento de que estava no nosso sangue viver do meio artístico de verdade e que para isso eu precisava me capacitar.
Eu amo o meu pai, mas nos últimos quatro anos ele vem investindo em blockbusters, não necessariamente em filmes sérios quem possam ser considerados como arte de verdade. Era assim que a indústria funcionava. Quanto maior a bilheteria, menor a chance de ser um filmão de verdade para os velhinhos da Academia.
Bem, nem neste aspecto eu imaginei que tinha puxado a ele. Eu adorava acompanha-lo na direção de seus filmes. Entendia um pouco sobre câmeras, movimentos, efeitos. Desde pequena sempre gostei de ajuda-lo durante as longas noites de edição final de um de seus filmes. E estar no backstage era sempre divertido e nada glamoroso.
Foi assim que eu conheci a minha melhor amiga e também o meu ex-namorado. Rebecca e James fizeram um filme juntos que foi o maior sucesso. Os personagens viviam um romance proibido em tempos modernos. Talvez o filme mais água com açúcar que meu pai tenha dirigido, mas me deu tantas coisas legais.
E foi graças a mim que ele contratou a Taylor para escrever a música tema do casal. E aí eu conheci a Taylor. Meu deus do céu! Como ela é uma pessoa linda! Não sei como ela aguenta ser alfinetada pela mídia dessa forma. Com bem menos que ela eu já estava completamente pirada.
Minha mãe sempre punha a sua melhor face de orgulho, apesar de deixar bem claro que éramos todos livres para escolhermos nossos caminhos. E de uma maneira delicada, ela sempre corrigia o Hugo, falando que estava em nosso coração viver do meio artístico. 
Hugo realmente parecia estar pronto para ter a sua própria carreira como diretor. Dois de seus curtas já tinham sido premiados. Muito responsável, ele também era bastante jovial. Segundo minha amiga Rebecca, ele era tão parecido comigo que ela pensou que estava pegando minha versão masculina. Foi meio nojento ouvir ela falando, não só isso, também todos os outros detalhes que melhores amigas contam umas para as outras, mas já superei.
Não que eu consiga imaginar o Hugo usando apenas uma de suas cuecas de seda estampadas enquanto anda pela casa. Especialmente se forem as de super-heróis.  Era apenas constrangedor demais imaginar toda a maldita cena. 
E a sala era cheia de móveis. Eu poderia não ter que me sentar naquele sofá duplo facilmente. 
No final, todos sabiam o que queriam para o seu futuro. Eu só tinha certeza de que gostava de pintar, desenhar... Nunca fui realmente boa com palavras. Queria ficar em paz, quieta e na minha. 
De vez em quando eu brincava de fazer alguns storyboards para meu pai. Era divertido. Ou seja, para mim, a mágica acontecia justamente dentro da minha zona de conforto.
Mesmo assim todos queriam me mostrar que um curso à distância não seria suficiente e que cursos isolados também não bastariam para explorar o que estava preso dentro de mim. Eu também sabia que ia precisar arrumar algum trabalho um dia. Não dava para continuar sendo a princesinha dos Clark para sempre. 
Da mesma forma que eu detestava a possibilidade de ser inútil, eu detestava o apelido que Hugo havia me dado.
Na verdade eu sempre o avisava sobre onde ele poderia enfiar tal gracinha. 
Acompanhei minha mãe em vários filmes que ela trabalhou. Ela é uma excelente roteirista e adaptadora. Foi indicada ao Oscar diversas vezes e chegou a ganhar um Globo de Ouro. Apesar de ter passado algum tempo trabalhando apenas como revisora de roteiros adaptados, por nossa causa, eu gostaria de ser criativa como ela. Ou de ser uma curadora tão elogiada. Ela deixara os roteiros de lado e estava se dedicando à curadoria do Sundance há exatos 6 anos. Era sempre tão elogiada, tão querida. E ela sempre foi uma mãe multitalentosa. Vários quadros que temos em casa foram pintados por ela. Dela eu puxei a paixão por passar horas pintando e desenhando. 
E foi assim que no meu aniversário de dezesseis anos, além de ter ganhado uma modesta festa, ter ficado bêbada além da conta graças ao meu primeiro porre e vomitado em cima dos sapatos do James, eu ganhei o meu atelier. O cantinho aonde eu estava desesperada para chegar nesse exato momento. 
Aproveitei a parada em mais um sinal vermelho – o que provava que este era um dia que não deveria ter acontecido – e peguei um chiclete. A música estava alta demais e só notei isso quando abri as janelas. Um pouco de ar fresco não me faria mal. Meus dedos da mão direita batiam na direção acompanhando o ritmo da bateria. Agradeci em voz alta quando o sinal abriu e quase chorei de emoção quando entrei em minha rua. Ninguém se importaria se eu acelerasse apenas mais um pouco. 
Só mais um pouco. 
Atravessei os portões vibrando por dentro.
“Sarah!” Eu espremi os olhos quando desliguei o carro e ouvi o grito da minha mãe. “Pelo amor de Deus!” Ela estava com as mãos no peito. “Você está louca menina?”
“Boa tarde mãe!”
Eu tinha entrado com tanta pressa em casa que nem notei que ela estava na garagem. Na verdade, eu não sabia o que ela estava fazendo ali. Ainda era cedo e ela deveria estar em uma reunião com algum estúdio hoje. 
“Sarah...” Eu podia sentir como ela estava bem atrás de mim. “Espera! O que foi que aconteceu?”
“Eu estou nervosa!”
“Sarah... Vamos conversar.” Sua voz estava doce. Mas eu podia lidar com essa maldita pressão sozinha. ”Amor, eu sei que você está nervosa. Vem cá. Converse com a sua mãe.”
“Mãe pelo amor de Deus!”
“SARAH LILIAN CLARK!” Ela gritou comigo, mas não parei.
Continuei caminhando até que alguém me agarrou. 
“Pode deixar Kate. Eu já a peguei.”
“Rebecca!” Foi minha vez de colocar as mãos no peito. “O que você está fazendo aqui?”
“Nós marcamos ontem, lembra?” Ela segurou meus ombros com força. “Nos arrumarmos para hoje à noite... E tenho que te contar algo que você não vai acreditar!” Eu a puxei em direção ao atelier e nos tranquei lá dentro. 
“Eu não posso ir.”
“Como não?” Ela revirou os olhos. “Você viu como todo mundo só comenta da sua tela?”
“Eu deveria ter feito qualquer coisa diferente... mas não ter usado aquela tela.”
“Eu não estou te entendendo...” Ela se sentou no banco giratório de uma das minhas mesas. “Olha, eu sei que você não gosta de ser o centro das atenções, mas o seu trabalho é o melhor, sem dúvida nenhuma.”
“Eu odeio ser assim. E a minha tela não é nada demais.”
“Sarah... por favor!” Ela veio até onde eu estava e apertou meus ombros. “Você está cheia de energia teen.” Fechei os olhos. “Olha, essa energia teen não combina com você amiga.”
“O que você sabe sobre a tela?”
“Que é a melhor da galeria da universidade.” Ela piscou. “Até aquele povinho estranho comentou que pode ver o seu potencial. Você está sendo o motivo de fofocas de todo o departamento de artes. Mas isso passa logo. Já passei por coisas piores, você sabe.”
“Não Rebecca. O que é a tela?”
“Eu não sei.” Ela deu os ombros. “Você nunca me mostra nada até ficar pronto.”
“Eu preciso sumir com aquela tela de lá.” Passei a mão pelo cabelo, nervosa. “Você não está entendendo! Eu nem sei o porquê mostrei aquela porcaria para a Jenny! Eu só queria saber a opinião dela. Ela sabe que eu não pinto pessoas. Então ela pirou, tirou uma foto e aqui estamos nós!”
“Ai! Quanto drama! O que tem naquela tela?”
“Nós dois.” Sussurrei.
“Você e o James?” Ela perguntou fazendo uma careta. “Bem, nunca vi você pintando ou desenhando nada dele.”
“Justamente.”
“Uau! O Gabriel? Uau!”
Rebecca entendeu na mesma hora e ficou nervosa também. Só ela sabia. Mas eu aposto que ela tinha conseguido esquecer. Eu até tentei, mas o que eu deveria fazer mesmo era superar. Deveria estar tranquila, afinal, não traí ninguém. Na teoria, a gente tinha brigado feio e acabado pouco antes do natal. Só voltamos pouco depois do ano novo. Não tinha motivo de me sentir culpada.
Tinha?
Pela cara de Rebecca sim. Ela ainda estava boquiaberta.
“É isso aí. Está sentindo toda a energia teen agora?” Provoquei cruzando meus braços. 
“E como.” Ela voltou para o banco giratório e ficou um tempo pensativa. “Dá para saber que é você? Ou que é ele?”
“Claro que não! Você é louca?”
“Então relaxa.” Ela respirou fundo. “Agora o leite já foi derramado. E você vai tirar um A+ hoje à noite.” Ela sorriu e me abraçou, como se estivesse orgulhosa.

Isso só me deixou ainda mais nervosa. O que eu ia fazer? 




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